
Dados recentes do Ministério da Saúde, obtidos e divulgados pelo site Repórter Brasil, revelaram que em 2022, 210 municípios brasileiros detectaram a presença de todos os agrotóxicos testados na rede de abastecimento de água.
Essa situação, conhecida como "efeito coquetel," em que diversas substâncias tóxicas são detectadas na água, tem gerado preocupação entre especialistas.A investigação se baseou em informações do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua) do Ministério da Saúde e em testes realizados em 2022. O cruzamento de dados revelou que várias localidades em diferentes regiões do país estão sofrendo com a presença de agrotóxicos em suas fontes de água.
Municípios como Cáceres, Conquista D’Oeste, Juína, Tabaporã e Terra Nova do Norte estão listados entre aqueles em que todos os agrotóxicos testados foram encontrados na água, independentemente de estarem dentro ou acima dos limites permitidos. Esses testes envolveram todas as redes de abastecimento disponíveis nos municípios, sejam elas operadas por empresas públicas ou privadas.
Além disso, os dados do Ministério da Saúde indicam que, de todos os municípios que realizaram testes (1.609 no total), 6 em cada 10 encontraram pelo menos um tipo de agrotóxico em suas fontes de água. É importante destacar que esse número pode ser ainda maior, já que 56% dos municípios não enviaram dados ou tiveram informações consideradas inconsistentes pela pasta da saúde.
O estado de Mato Grosso, conhecido por ser o maior comprador de agrotóxicos do país, enfrenta uma realidade preocupante. Apesar de liderar a aquisição desses produtos, 73% dos municípios do estado não forneceram informações ao Sisagua. A exposição da população ao veneno na água no Mato Grosso é quase dez vezes maior do que a média nacional, alcançando 7,3 litros por pessoa.
Um exemplo disso é a cidade de Lucas do Rio Verde, uma das maiores produtoras de grãos do Brasil. Embora a economia do município seja baseada na agropecuária, os dados de presença de agrotóxicos na água não foram enviados de forma consistente ao Ministério da Saúde, apesar de evidências anteriores sobre a contaminação, como a detecção de agrotóxicos no leite de mulheres que amamentam em 2011.
O assessor jurídico do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Lucas do Rio Verde, Marcos Woicichoski, afirmou que os dados de 2022 ainda estão sendo lançados no Sisagua pela vigilância municipal de saúde. No entanto, os dados disponíveis não oferecem informações claras à população sobre a qualidade da água que chega às torneiras.
O SAAE enfatizou que os níveis de agrotóxicos na água sempre estiveram abaixo dos limites de segurança estabelecidos. Por outro lado, a Secretaria de Saúde de Lucas do Rio Verde não respondeu às questões enviadas. De acordo com pesquisadores, existe uma pressão para que esses dados não sejam publicados, especialmente em áreas onde o agronegócio tem forte influência política.
A divulgação desses dados ressalta a urgência de monitorar e mitigar os riscos da exposição a agrotóxicos na água potável e destaca a necessidade de se investigar a interação entre diversas substâncias presentes na água, uma vez que o "efeito coquetel" pode gerar impactos à saúde pública.

